Construção industrializada: a solução europeia para o défice de residências de estudantes

Nas grandes cidades universitárias da Europa, os estudantes deparam-se repetidamente com o mesmo obstáculo: a escassez de camas disponíveis. Esta realidade é tão preocupante que a União Europeia de Estudantes (ESU), organização que representa mais de 20 milhões de jovens em 40 países, classifica a situação como uma emergência habitacional capaz de comprometer os alicerces de um ensino superior verdadeiramente equitativo [1]. 

Perante este cenário, há uma solução que tem vindo a ganhar consistência nos mercados mais dinâmicos e não passa por construir mais do mesmo, mas sim por construir de uma forma completamente diferente. 

O défice que a construção tradicional não consegue colmatar 

Os estudantes procuram alojamento perto das universidades, a preços acessíveis, mas a oferta de residências construídas especificamente para esse fim é insuficiente: a procura cresce, a oferta não acompanha, e o défice agrava-se ano após ano. 

As suas limitações são bem conhecidas: prazos de execução prolongados, custos elevados, vulnerabilidade a condicionalismos climáticos e laborais e uma produção significativa de desperdício. Para os promotores e investidores de PBSA (Purpose-Built Student Accommodation)- residências exclusivamente concebidas para alojar estudantes-, há ainda um fator adicional que agrava o problema: o calendário académico é inflexível. Falhar a entrega de um projeto poderá significar perder um semestre inteiro de rendimento. 

É este conjunto de pressões que tem vindo a impulsionar a construção industrializada -também designada por offsite – como uma resposta racional e cada vez mais adotada, já não sendo encarada como uma simples alternativa. Em 2025, o mercado europeu de construção industrializada aplicada à educação e ao alojamento estudantil representou 31,2% do total [2], um valor expressivo que, ainda assim, não responde a todas as necessidades reais. 

O funcionamento do modelo e a sua adequação a este contexto 

Na construção industrializada, as unidades habitacionais são produzidas em ambiente industrial, sob condições rigorosamente controladas. Posteriormente, são transportadas para a obra já praticamente concluídas, incluindo casas de banho, cozinha e revestimentos interiores. Em simultâneo, enquanto estes módulos são produzidos, as fundações avançam em paralelo no terreno. 

Os resultados são expressivos: a construção offsite permite reduzir os prazos de entrega em 30% a 50% face à construção convencional, assegura maior previsibilidade de custos e limita o desperdício de materiais [3]. 

Assim, a PBSA revela-se particularmente adequada a este modelo. Ao contrário de outras tipologias de edifícios, as residências universitárias tiram proveito de uma lógica altamente repetitiva: por norma, os quartos são idênticos entre si, as instalações sanitárias são estandardizadas e os layouts são simétricos. Esta uniformidade é exatamente o que torna a produção em série eficiente. Cada módulo sai da fábrica certificado, testado e pronto a montar, com uma qualidade controlada industrialmente e independente das condições do estaleiro. 

A Comissão Europeia enquadra a construção industrializada como um dos principais instrumentos para acelerar a entrega de habitação acessível na União Europeia nos próximos anos [4]. Em linha com este enquadramento institucional, a Mordor Intelligence salienta, num relatório de janeiro de 2026, a adoção de construção modular e as certificações ESG como motores-chave do crescimento no mercado europeu de alojamento estudantil, com impacto direto na capacidade de oferta [5]. 

Exemplos europeus de uma tendência consolidada 

Não estamos perante uma promessa futura. Em vários países da Europa, existem já residências universitárias construídas com métodos industrializados que se encontram plenamente operacionais. 

No Reino Unido e na Irlanda, a PBSA é atualmente um dos segmentos mais dinâmicos da construção modular [4]. Um exemplo ilustrativo é o Dyson Institute of Engineering & Technology, em Malmesbury, que integra uma aldeia universitária composta por mais de 60 unidades habitacionais individuais. Estes módulos foram pré-fabricados em offsite e posteriormente montados numa configuração que articula espaços sociais, salas de estudo e áreas comuns [6]. 

Já na Noruega, a Unihouse – parceira oficial da Bond Housing Systems e uma das maiores produtoras europeias de construção modular, com capacidade para 2.000 módulos por ano e projetos em vários países europeus– concluiu, em 8 meses, em Trondheim a residência universitária Dromitories Persaunet. Estes três edifícios de cinco pisos cada contam com 89 apartamentos, foi projetado e executado com tecnologia modular e entregue com acabamentos chave-na-mão [7]. Os módulos foram fabricados na Polónia e montados no local, uma logística que a Unihouse já replicou em múltiplos mercados europeus. 

Estes projetos não constituem exceções, mas sim exemplos de uma tendência consolidada nos mercados europeus mais maduros, onde a construção industrializada de PBSA é já uma prática corrente. 

Portugal: o mesmo problema, outra escala de atraso 

Em Portugal, o défice de residências de estudantes é igualmente significativo. Segundo dados da WORX Real Estate Consultants [8], a taxa de cobertura nacional é de apenas 8%, valor que, quando ajustado à procura efetiva de estudantes deslocados, não ultrapassa os 22%. Em Lisboa e Coimbra, a situação é ainda mais crítica, com a cobertura a descer para cerca de 7%. Este contexto torna-se mais exigente perante a crescente procura de estudantes internacionais, que aumenta cerca de 14% ao ano, num universo superior a 448 mil alunos no ensino superior. 

Apesar deste cenário, existe um enquadramento de resposta pública. O PNAES (Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior) prevê um investimento de 516 milhões de euros e o PRR estabelece a meta de criação ou reabilitação de 18 mil camas até 2026 [9]. No entanto, a execução tem ficado aquém dos objetivos definidos. Em Lisboa, por exemplo, foram aprovados 41 projetos entre 2022 e 2026, correspondendo a cerca de 5.992 camas, mas muitos enfrentam riscos de não concretização devido a entraves regulatórios e ao aumento dos custos de construção [10]. Em paralelo, o investimento privado demonstra dinamismo, com a WORX a registar 805 milhões de euros aplicados em alojamento estudantil desde 2019 [8]. Ainda assim, apesar do interesse crescente do mercado, persistem dificuldades na concretização efetiva da oferta. 

A construção industrializada não resolve a burocracia, mas responde diretamente a dois dos principais obstáculos operacionais: o prazo e a previsibilidade dos custos. Para os operadores internacionais já presentes em Portugal, habituados a mercados onde o offsite é uma prática consolidada, a adoção deste modelo é critica. O que falta, sobretudo, é uma maior familiarização do setor com esta solução e o seu reconhecimento como uma alternativa viável e recorrente, e não apenas como uma abordagem pontual ou excecional. 

 03 de julho de 2026.

 

Fontes: 

[1] European Students’ Union (ESU) / Conselho Económico e Social Europeu – “A Roof Over Every Student’s Head” (dezembro 2025). https://www.eesc.europa.eu/en/news-media/eesc-info/eesc-info-december-2025/articles/133457 

[2] Market Data Forecast – “Europe Modular Construction Market Size & Share Report 2033” (dezembro 2025). Quota do segmento educação/institucional em 2024. https://www.marketdataforecast.com/market-reports/europe-modular-construction-market 

[3] BUILD UP / Comissão Europeia – “Research Note on Offsite Construction” (janeiro 2025). Redução de prazos 30-50% e desperdício de materiais inferior a 5%. https://build-up.ec.europa.eu/system/files/2025-01/RB385Rpj2z_29_01_2025_083227.pdf 

[4] Modular Building Institute – “Modular Building Construction and Manufacturers in Europe” (janeiro 2026). https://www.modular.org/european-council/ 

[5] Mordor Intelligence – “Europe Student Accommodation Market Analysis” (janeiro 2026). Construção modular, prazos de entrega e certificações ESG no mercado PBSA europeu. https://www.mordorintelligence.com/industry-reports/europe-student-accomodation-market 

[6] Global Student Living -“Rethinking Student Housing: five pioneering student housing projects” (julho 2025). Dyson Institute (UK) e Skovsporet (Dinamarca). https://gslglobal.com/2025/07/25/rethinking-student-housing-five-pioneering-student-housing-projects/ 

[7] Unihouse SA – Pardobakken-trondheimNorway:  https://unihouse.pl/en/design/128-hotels-campuses/1822-nardobakken-trondheim-norway.html 

[8] WORX Real Estate Consultants – “Student Housing: One of the Most Promising Niches in Commercial Real Estate” (novembro 2025) e “Portugal Student Housing Factsheet 2025”. https://worx.pt/en/student-housing-one-of-the-most-promising-niches-in-commercial-real-estate/ 

[9] Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) – “Financiamento PRR – 18 000 camas intervencionadas até 2026”. https://pnaes.pt/financiamento-prr/ 

[10] Real Estate Lisbon – “Lisbon Student Housing: 41 Projects Approved, But Bureaucracy and Costs Stall Development” (fevereiro 2026). https://www.realestate-lisbon.com/news/investment-insights/lisbon-student-housing-41-projects-approved-but-bureaucracy-and-costs-stall-development